Parlendas para escolher: de onde vem “Eeny, meeny, miny, moe” e por que a escolha não é aleatória

Quem vai ser o pegador no pega-pega, quem começa, qual bala tirar do saquinho? No Brasil, as crianças resolvem isso há gerações com uma parlenda, como “Uni, duni, tê” ou “Minha mãe mandou eu escolher este daqui”. Nos países de língua inglesa, o papel é de “Eeny, meeny, miny, moe”, que muita criança aprende antes mesmo de saber ler. Por trás das palavras sem sentido da parlenda inglesa mais famosa existe uma história longa e em parte incômoda, além de um fato surpreendente: ela não tem nada de aleatória.

Eeny, meeny, miny, moe hoje

A versão moderna mais comum é esta:

Eeny, meeny, miny, moe,
Catch a tiger by the toe.
If he hollers, let him go,
Eeny, meeny, miny, moe.

Numa tradução livre: “Pegue um tigre pelo dedão do pé, se ele gritar, deixe ele ir”.

A grafia varia (eenie, eeny, meenie, miney, mo, moe), e muitos grupos acrescentam versos, como “my mother told me to pick the very best one” (“minha mãe mandou eu escolher o melhor de todos”), para esticar a contagem. Ela faz parte de uma grande família que os folcloristas de língua inglesa chamam de counting-out rhymes, as nossas parlendas para escolher: a cada palavra ou batida, a vez passa para o próximo jogador, e quem recebe a última palavra é escolhido ou eliminado.

Parlendas brasileiras para escolher

As crianças brasileiras têm as suas próprias parlendas, e elas funcionam exatamente do mesmo jeito. Duas das mais conhecidas começam assim:

“Uni, duni, tê,
Salamê minguê,
Um sorvete colorê,
O escolhido foi você!”

“Minha mãe mandou
Eu escolher este daqui...”

São parlendas tradicionais, sem autor conhecido e com muitas variações de uma região para outra. A matemática delas, porém, é a mesma de “Eeny, meeny”: se o número de palavras é fixo e se sabe por quem a contagem começa, o resultado já está decidido. Mais abaixo explicamos por quê.

Como funciona a escolha por parlenda

Uma criança, a que conta, aponta para cada pessoa da roda no ritmo das palavras, muitas vezes incluindo a si mesma. A cada sílaba forte, o dedo passa para a pessoa seguinte. Quando a parlenda termina, quem estiver sendo apontado vai ser o pegador ou sai da rodada. Nas brincadeiras de eliminação, a parlenda é repetida até sobrar um único jogador.

A parlenda resolve um problema real das crianças: ela oferece uma escolha que todo mundo aceita como justa, sem que um adulto precise intervir. O ritual importa tanto quanto o resultado. Como todos ouvem as palavras e acompanham o dedo, a escolha parece aberta e imparcial.

“Eeny, meeny” é só uma entre muitas parlendas desse tipo. As crianças de língua inglesa também usam, por exemplo, “one potato, two potato” (“uma batata, duas batatas”): os jogadores estendem os punhos fechados e quem conta bate em um de cada vez. Quando Henry Carrington Bolton reuniu parlendas de escolha na década de 1880, juntou exemplos de muitos países e idiomas e concluiu que o costume existia entre crianças de quase todo lugar. As palavras mudam de um lugar para outro, mas o método continua surpreendentemente igual: uma batida por pessoa, e a última batida decide.

Por que não é realmente aleatório

Uma parlenda de escolha é uma sequência fixa. Se ela tem um número definido de batidas e você sabe por quem a contagem começa, o resultado está decidido antes de alguém abrir a boca. Com quatro jogadores e uma parlenda de dezesseis batidas, por exemplo, a última batida sempre cai no jogador que está logo antes do ponto de partida, contando no sentido horário.

As crianças percebem isso rápido. Quem conta e quer um resultado específico pode começar por outra pessoa, acrescentar um verso ou esticar uma palavra por duas batidas. É por isso que as discussões de “conta de novo!” são tão comuns no recreio, e por isso a parlenda serve para escolhas sem importância, mas não para o que precisa ser justo de verdade.

Os primeiros registros

Ninguém sabe quem disse “eenie meenie” pela primeira vez. O que dá para rastrear é quando as versões começaram a aparecer impressas.

  • Iona e Peter Opie, os principais estudiosos do folclore infantil do século XX, registraram uma parlenda parecida que começava com “Hana, man” e que as crianças de Nova York recitavam por volta de 1815.
  • Em 1855, a revista britânica Notes and Queries publicou uma versão americana que começava com “Eeny, meeny, moany, mite”.
  • Em 1882, o glossário do dialeto da Cornualha de Fred Jago registrou uma versão da Cornualha que começava com “Ena, mena, mona, mite”.
  • Em 1888, o químico e folclorista americano Henry Carrington Bolton publicou The Counting-Out Rhymes of Children (“As parlendas de escolha das crianças”). Ele descreveu “eeny, meeny, miny, mo” como a parlenda de escolha favorita das crianças americanas e listou relatos de muitos estados.

Ou seja, no fim do século XIX a parlenda já estava bem estabelecida dos dois lados do Atlântico, em muitas variações locais. Como passava de criança para criança de boca em boca, nunca existiu um texto fixo.

De onde ela veio?

Existem várias teorias, e nenhuma foi comprovada.

  • Antigas palavras de contagem. Os sons iniciais lembram números de antigos sistemas de contagem britânicos, como a contagem dos pastores “yan, tan, tethera” no norte da Inglaterra. Os Opie achavam que a parlenda poderia descender de uma contagem desse tipo.
  • Adivinhação por sorteio. Bolton defendia que as brincadeiras de escolha em geral vinham de antigas práticas de escolher por sorteio. No mesmo livro, ele admitiu que isso era em parte especulação.
  • Paralelos europeus. Parlendas sem sentido parecidas existem em outros idiomas, incluindo o alemão e o holandês, o que sugere uma tradição comum de rimas infantis de contagem, e não uma única origem.

É comum ler que a parlenda era usada por druidas ou em rituais celtas ou saxões para escolher vítimas de sacrifícios. Não existe nenhuma prova documental de nada disso. O máximo que se pode dizer é que os sons talvez ecoem antigas palavras de contagem, e que os primeiros registros seguros são do século XIX.

A versão racista

Durante boa parte da sua história, uma versão americana muito comum usava no segundo verso, onde hoje aparece “tiger”, um insulto racista contra pessoas negras. A coletânea de Bolton de 1888 traz a parlenda dessa forma, e o Dictionary.com observa que essa versão foi amplamente usada até mais ou menos a década de 1950. Os Opie constataram que o insulto não fazia parte da tradição inglesa mais antiga, e que a versão americana se espalhou pela Grã-Bretanha no século XX.

A partir de meados do século XX, substitutos adequados para crianças, como “tiger”, viraram a norma, e “catch a tiger by the toe” é hoje a versão padrão ensinada às crianças. A redação antiga ainda gera polêmica quando reaparece, o que é um ótimo motivo para ficar com a versão moderna.

Jeitos mais justos de escolher alguém

Para uma rodada rápida de pega-pega, a parlenda resolve bem. Quando a escolha importa de verdade, como quem apresenta primeiro na aula ou quem ganha um prêmio, é melhor usar um método que quem conta não consiga manipular.

  1. Use uma ferramenta aleatória. O nosso sorteador de nomes gira uma roda de nomes e para em um deles ao acaso, sem ninguém contando.
  2. Sorteie nomes de um chapéu, bem misturados, sem olhar.
  3. Se for usar uma parlenda mesmo assim, deixe outra pessoa, e não quem conta, escolher por onde começar.

Professores que querem chamar os alunos de forma justa também podem colocar os nomes da turma na roleta aleatória ou sortear um número da lista de chamada com o gerador de número aleatório.

Fontes

  • Bolton, H. C. (1888). The Counting-Out Rhymes of Children: Their Antiquity, Origin, and Wide Distribution. London: Elliot Stock. archive.org
  • Opie, I. and Opie, P. (1951). The Oxford Dictionary of Nursery Rhymes. Oxford University Press (conforme resumido no artigo da Wikipédia abaixo).
  • Eeny, meeny, miny, moe. Wikipedia (em inglês). en.wikipedia.org
  • Martin, G. Eeny, meeny, miny, mo: meaning and origin. The Phrase Finder. phrases.org.uk
  • The Racist History of "Eenie, Meenie, Miney, Moe". Dictionary.com (2018). dictionary.com

FAQ

Quantos anos tem a parlenda “Eeny, meeny, miny, moe”?

Parlendas parecidas já eram registradas no começo do século XIX, e uma versão próxima da moderna era amplamente relatada entre crianças americanas em 1888. A origem exata é desconhecida.

A parlenda vem dos celtas ou dos druidas?

Não há provas disso. Alguns folcloristas notaram que os sons lembram antigas palavras britânicas de contagem, como yan, tan, tethera, mas isso é uma teoria, não uma origem documentada.

Por que “Eeny, meeny” é polêmica?

Versões americanas e britânicas antigas usavam um insulto racista no segundo verso. A parlenda moderna usa tiger (tigre) no lugar, e essa versão se tornou a mais comum em meados do século XX.

Uni duni tê e outras parlendas de escolha são aleatórias?

Não. Com um número fixo de palavras e um ponto de partida conhecido, o resultado já está decidido antes de começar, e quem conta pode manipulá-lo. Um sorteador de nomes é mais justo.

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