Oráculo dos dados: sim ou não com dados na Antiguidade
Os dados estão entre os objetos de jogo mais antigos já feitos pelo ser humano, e durante boa parte da sua história a linha entre jogar e consultar os deuses foi bem tênue. Veja o que a arqueologia e os textos antigos realmente mostram sobre os dados como jogo e como oráculo, e como a mesma ideia foi parar nos roladores de dados de hoje.
Antes dos dados: os astrágalos
Muito antes dos cubos entalhados, as pessoas jogavam ossos do tornozelo de ovelhas e cabras, chamados astrágalos em grego. Um astrágalo tem mais ou menos o formato de uma caixinha e pode parar sobre quatro dos seus lados, cada um com uma aparência diferente, por isso funciona como um sorteador natural. Gregos e romanos usavam esses ossinhos tanto como brinquedo quanto para tirar a sorte. Quando havia pontuação, os quatro lados valiam 1, 3, 4 e 6; não existe 2 nem 5 em um astrágalo.
Os astrágalos eram ligados a Hermes, deus da sorte, dos sorteios e das mensagens. Um astrágalo encontrado em Sha'ar Ha-'Amaqim, no norte de Israel, datado do fim do século III ou do início do século II a.C., tem até o nome dele riscado.
Os primeiros dados
Alguns dos primeiros dados mais conhecidos pertencem ao Jogo Real de Ur. O tabuleiro do Museu Britânico, vindo do Cemitério Real de Ur, no atual sul do Iraque, é de cerca de 2600-2400 a.C. O jogo usava dados de quatro lados em forma de pirâmide, e não cubos.
O cubo com pontos de um a seis, o formato que usamos até hoje, aparece no terceiro milênio a.C. em cidades do vale do Indo como Harappa e Mohenjo-daro. Alguns arqueólogos acham que o dado cúbico pode ter se popularizado primeiro ali, mas achados antigos de outras regiões fazem com que a pergunta sobre onde os dados foram “inventados” não tenha uma resposta única. As afirmações que circulam na internet de que os dados ou a adivinhação com dados teriam dezenas de milhares de anos não têm apoio nas evidências.
Oráculos de dados no Império Romano
As melhores evidências de dados usados como oráculo de verdade vêm do século II d.C., das cidades serranas do sudoeste da Anatólia (atual Turquia): Lícia, Panfília, Pisídia e Frígia. Ali, as comunidades erguiam grandes blocos de pedra com inscrições que funcionavam como um adivinho de autoatendimento.
O visitante jogava cinco astrágalos (às vezes sete) e procurava o resultado na pedra. Como cada osso pode mostrar 1, 3, 4 ou 6 e só a combinação importava, cinco ossos dão 56 jogadas possíveis, e as inscrições trazem uma resposta para cada uma: alguns versos em grego que citam um deus e dizem a quem pergunta o que esperar ou se deve seguir em frente. Esses oráculos eram muito ligados a Hermes. O historiador Johannes Nollé reuniu todas as inscrições conhecidas em um livro de 2007, e juntas elas mostram pessoas comuns usando o acaso para conseguir uma resposta rápida, com ar divino.
Os dados também aparecem na decisão mais famosa da história romana. Segundo o biógrafo Suetônio, quando Júlio César atravessou o Rubicão com seu exército em 49 a.C., ele disse “a sorte está lançada” (em latim, alea iacta est: “o dado está lançado”). Ele queria dizer que a jogada estava feita e que o resultado já não dependia dele.
Do destino ao jogo justo
Um estudo dos arqueólogos Jelmer Eerkens e Alex de Voogt, publicado na Acta Archaeologica, mediu 110 dados datados dos Países Baixos, do período romano até os tempos modernos. Os dados romanos variavam muito em formato e tamanho, e muitos eram visivelmente tortos. Um estudo posterior dos mesmos pesquisadores, de 2022, constatou que alguns dados romanos tinham um lado mais de 50% mais longo que outro, o que faria alguns números saírem com mais frequência que outros. A conclusão deles foi que os jogadores romanos simplesmente não viam um cubo perfeito como essencial, o que combina com a ideia de que uma jogada era lida como destino, e não como um evento aleatório justo. Os dados medievais, de cerca de 1100 em diante, usavam em geral a disposição “dos primos”, com o 1 oposto ao 2, o 3 oposto ao 4 e o 5 oposto ao 6.
Por volta de 1450, isso mudou rápido. Os dados viraram cubos mais regulares, e a disposição passou para a “do sete”, que usamos até hoje, em que as faces opostas somam sete. Os autores sugerem que os jogadores podem ter começado a ver uma jogada menos como sinal do destino e mais como uma questão de sorte que deveria ser justa. Os matemáticos seguiam pelo mesmo caminho: as cartas trocadas entre Blaise Pascal e Pierre de Fermat em 1654, escritas para resolver problemas de jogos de azar, costumam ser vistas como o início da teoria da probabilidade.
Rolar dados para decidir hoje
Os dados passaram dos oráculos para os jogos e depois para um novo tipo de jogo. Dungeons & Dragons, lançado em 1974, tornou os dados poliédricos, como o d20 de vinte lados, familiares para milhões de jogadores, que os usam para decidir se uma ação dá certo.
O uso para tomar decisões é mais simples e continua funcionando:
- Até seis opções: numere suas opções e role um dado de seis lados. Se houver menos de seis, role de novo sempre que sair um número sem opção.
- Sim ou não: combine antes que ímpar é sim e par é não, ou que 4-6 é sim.
- Escolhas com peso: dê mais faces à sua opção favorita, por exemplo 1-4 para pizza e 5-6 para curry.
- Muitas opções: para listas maiores, role dois dados ou um d20.
Um detalhe importante: as somas de vários dados não se distribuem por igual. Com dois dados de seis lados, um total de 7 sai seis vezes mais que um 2 ou um 12, então não associe opções a somas se quiser que todas tenham a mesma chance. Nossas tabelas de probabilidade dos dados mostram as chances exatas. Para outras formas de sair do impasse, veja como tomar uma decisão quando você não consegue decidir.
Sem dados por perto? Nosso rolador de dados online rola de um a seis dados justos no navegador. Não precisa de astrágalos nem de tábuas de pedra.
Fontes
- Tabuleiro de jogo (Jogo Real de Ur), 1928,1009.378. The British Museum
- Ancient Indus die. Harappa.com
- Costanza, S. Venus playing with astragals: erotic oracles and prayers in astragalomancy. Quaderni di Ricerca Online, Universidade de Siena (PDF)
- Last, R. (2000). Inscribed Astragalus from Sha'ar Ha-'Amaqim. Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik 130, 248. Universidade de Colônia (PDF)
- It's not how you play the game, but how the dice were made (sobre Eerkens e de Voogt, Acta Archaeologica). UC Davis via EurekAlert!; estudo posterior: Eerkens, J. W. e de Voogt, A. (2022), Why are Roman-period dice asymmetrical?, Archaeological and Anthropological Sciences 14.
- Suetônio, A vida de Júlio César, 32. LacusCurtius, University of Chicago
Perguntas frequentes
Quantos anos têm os dados?
Os dados têm pelo menos cerca de 4.500 anos. O Jogo Real de Ur, de cerca de 2600-2400 a.C., usava dados de quatro lados, e dados cúbicos com pontos são conhecidos em sítios do vale do Indo do terceiro milênio a.C. Antes disso, as pessoas jogavam astrágalos de animais.
Os povos antigos usavam dados para prever o futuro?
Sim. No século II d.C., cidades do sudoeste da Anatólia erguiam oráculos de pedra: você jogava cinco astrágalos e lia a resposta para a sua jogada em uma lista gravada.
Por que as faces opostas de um dado somam sete?
É uma convenção, não uma lei da natureza. Os dados medievais muitas vezes juntavam 1-2, 3-4 e 5-6. A disposição do sete virou padrão na Europa a partir de cerca de 1450, junto com cubos mais regulares e mais justos.
Como usar dados para tomar uma decisão?
Numere suas opções, role um dado e role de novo se sair um número sem opção. Para sim ou não, combine antes que ímpar é sim e par é não.